Autocrítica reflexiva do ativismo alimentar

Um texto com (muito) mais perguntas do que respostas

Estou aqui com minha tapioca de mandioca pubada e meu leite de inhame, tudo feito em casa, e percebo o quanto estou orgulhosa de comer assim. No semestre passado, no mestrado em Nutrição em Saúde Pública da USP, fiz a disciplina Determinantes das escolhas e comportamentos alimentares, das professoras Patrícia Jaime e Neha Khandpur. E comecei a questionar o quanto eu, ativista alimentar, sou tão influenciada por marcadores de identidade quanto qualquer pessoa — como aquelas que comem ultraprocessados pela praticidade, ou as que compram Danoninho acreditando na publicidade. As pessoas, enfim, que sempre achei que eram vítimas do consumismo e dos determinantes culturais.

Quais determinantes determinam as escolhas de um ativista alimentar? Bebo meu suco verde com canudo de talo de abóbora colhida no quintal e olho para meus marcadores de identidade. O quão para nós, ativistas alimentares anti-capitalistas, o não-consumo de ultraprocessados é importante, não ir ao supermercado (comprar direto do agricultor) é importante, cozinhar em casa com alimentos in natura (comida de verdade) é importante — e como isso tem que ser propagado, mostrado, assim como o veganismo periférico, para que as pessoas vejam que é possível, que não é “de elite”. O que molda nossas escolhas são determinantes políticos não institucionais — que fazem com que comer, afinal, se torne principalmente um ato político.

Meu trabalho/ativismo/pesquisa é muito focado no questionamento, reflexão e mudança de hábitos. Mas o quão legitimo, me pergunto, é o impulso de querer que OS OUTROS mudem? Qual é o balizador dessa legitimidade (ou ausência dela), perguntei para a professora Priscila Sato na aula em que ela falava sobre os determinantes socioculturais. Eu tenho balizadores bem demarcados, e que considero fortes e potentes: a saúde planetária e a exploração animal. É por eles que luto, é por eles que desejo que os outros mudem. Eles são meus delimitadores éticos — junto com a raiva de ser feita de trouxa pela indústria alimentícia (o consumismo, a publicidade, o capitalismo, o patriarcado, os homens brancos da laia do ministro do meio ambiente). Ainda assim: por que me importo TANTO, a ponto de fazer disso minha vida? O que me move, e consequentemente move minha pesquisa, meu trabalho com as oficinas e com a escrita, meu ativismo digital? Por que é tão importante que eu me veja dessa maneira aos olhos dos outros? Que eu seja identificada como a cheerleader da mandioca, do feijão e do abacate, e olha só como é simples e acessível e empoderador? Talvez não seja apenas pelos meus balizadores éticos tão bem demarcados.

“Vai te tratar”, como dizem na terra onde eu nasci, lugar de gente delicadamente grossa, o Rio Grande do Sul. Pois talvez seja tudo apenas uma grande projeção. Eu sempre fui a diferentona do rolê. Nunca quis fazer igual aos outros. Hay capitalismo, soy contra. Mas ahhhhh, como ao mesmo tempo procuro aceitação. Talvez eu tenha sido forçada a ser a diferentona pela exclusão. Eu fiquei de fora da família tradicional brasileira e minha reação foi afirmar — com a vida — que quem não quer sou eu. Comecei a negar qualquer coisa que fosse padrão e a querer pertencer ao grupo dos que só pertencem a si mesmos. Brigar com o agronegócio, a indústria alimentícia, os homi branco da laia do ministro do meio ambiente cabe direitinho nesse modelito de rejeição aos valores formadores da elite (e da desigualdade) brasileira. Quem bom, então. Fiz do limão uma limonada (sem açúcar, por favor, porque no Brasil a indústria da cana é em sua totalidade monocultura capitalista). Está explicado eu querer ser a cheerleader da mandioca: é uma maneira de ser querida por um grupo diametralmente oposto à família tradicional brasileira (e esse parágrafo tão pessoal é a minha interpretação dos dados do artigo tão científico e tão qualitativo da aula sobre determinantes relacionados com o ambiente sociocultural e informacional — Social influences on eating: implications for nutritional interventions).

Mas, voltando ao primeiro parágrafo: por que os consumidores de Danoninho e nuggets são vítimas e eu não sou? Como provocou Elaine de Azevedo no curso Comida ETC, “você é vítima quando clica pra comprar algo na Black Friday? E se for o disco de vinil, ou a costela de Adão, a nova samambaia dos santaceciliers?”. Não sei. Mas, por sorte, tenho mais perguntas do que respostas. Seguimos questionando (e se tratando).

Escrevo, planto, estudo, viajo. Falo com bichos, abraço árvores, e vice-versa.

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