O pensamento sistêmico tem que estar na base do veganismo. Esse é um dos motivos pelos quais os ativistas veganos interseccionais se incomodam com o veganismo de consumo, aquele que vai na loja comprar produtos "veganos" industrializados (o outro é que o veganismo de consumo não se importa com demais causas anti-opressão, como o racismo — vide a polêmica sobre a proibição de sacrifícios animais em religiões afro-brasileiras).

Eu concordo contigo quando tu diz que o problema é a industrialização e a "cadeia de produção e consumo que concentra muita renda e poder na mão de latifundiários e monocultores". Acho que existe uma diferença ENORME entre comprar carne embalada em plástico no supermercado e se alimentar do animal que a pessoa mesmo criou. E sempre considerei que a maneira mais ética de consumir carne de um animal é a dos indígenas: a caça ritualística. De igual para igual, animal humano e não-humano.

Porém, nesse pensamento a gente exclui um fator que pra mim é um dos mais fortes guias do meu veganismo. Os animais são seres de direito e não estão aqui para servir os humanos. Nós não temos o direito de fazer o que fazemos com os animais. É sempre uma relação de exploração, baseada no especismo: minha espécie é superior a sua. E por isso eu posso te prender, te explorar, te matar. E não preciso do teu consentimento. Isso vale tanto para as grandes fábricas de carne e leite quanto para a senhorinha do porco.

O mundo está montado sobre a exploração animal. A relação dos humanos com animais, por mais violenta que seja, é normalizada. Estive agora em uma casa na periferia de uma cidade pequena em Cuba e a família cria galinha, porquinho, etc. Sempre foi assim pra eles e na família deles. E eu não tenho o direito de chegar e dizer que não é pra ser assim. Eles são pobres e vão fazer o que for preciso para sobreviver, e os animais que criam fazem parte da vida alimentar deles. Mas eu, criada na cidade desde sempre, também não posso me aproveitar dessa naturalidade, que não faz parte da MINHA cultura.

Existe MUITA comida local que é vegetal. Eu posso comer, na maioria dos casos, exclusivamente vegetais locais, ou com o mínimo rastro ambiental, sem precisar comer animais. Não preciso de farinha de amêndoas se tem tapioca. Pra que comer pão se tem mandioca?, como diz a Dra. Clara Brandão? ;)

Mas eu não vou comer o ovo da galinha do quintal da família do Yosi em Cuba, e muito menos o porco. Porque não faz parte do meu acervo cultural (quando eu comia ovo, era comprado em supermercado) e porque eu não preciso, já que tenho taaaaaanto vegetal disponível (jantei na casa dele: batata frita, arroz, tomate, pepino e suco de manga do quintal). A escolha entre ser ecológico e ser vegano não é necessária. Dá pra ser os dois.

beijos :)

Escrevo, planto, estudo, viajo. Falo com bichos, abraço árvores, e vice-versa.

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