Aterrando no antropoceno

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A grande tarefa que se coloca no antropoceno, me parece, é a de desaprender a viver — e depois, se der tempo, aprender a viver de outros modos. Para viver no antropoceno é primeiro preciso morrer, como sugere Roy Scranton [4]. Despedir-se das certezas e seguranças, abandonar as ilusões e privilégios. Soltar a mão da borda da piscina. Questionar tudo e olhar debaixo dos tapetes, encarando a sujeira. Assumir que foi você que sujou, e se responsabilizar. Não é tarefa fácil para nós, tão acostumados ao mundo do jeito que sempre foi. Nós, que vivemos numa época em que parecia…


@alenahra

Raspei o cu com gilete.
Máquina de afeitar.
Comprei umas cervejas.
Mas o alemão-cubano não vem.
O cara que vende tarjeta de internet na praça disse que casa comigo, no entanto. Daí eu posso ficar. “Fui casada uma vez e não quero nunca mais”, falei pra ele.
“Ah, mas tu não era casada com um cubano. O cubano é diferente. Sabe bailar la salsa”.
Tem razão, o rapaz.
Falo com um deles no Tinder.
Tenemos que cogermos en Cuba y pasarlo rico, mami — me diz ele.
Oye papito, que pinga linda, métemela — queria dizer pra ele.
Acaba aqui meu dialeto de foda do Centro Havana, aprendido diretamente de…


Todos os dias nós, a classe média branca, renovamos os votos com o pacto colonial

crédito: @trollinho Unsplash

Ontem era o “dia do índio”, e Geni Nunes fez um post falando sobre como brancos podem ser aliados na luta antirracista: não como salvadores, mas como traidores do pacto colonial. Eu nunca tinha chamado assim, mas essa é uma boa definição para o meu horizonte de ação pessoal: eu quero trair o pacto colonial — que é absolutamente nocivo não apenas para a maior parte da população deste país mas para a Terra (ou seja, para todas nós). E o que é o pacto colonial?

Leia o texto completo no Sul21.

Alessandra vive na Guarda do Embaú, em Santa…


Dois tipos de contemplação que podem botar as coisas em perspectiva, aliviar o sofrimento — e promover encantamento e reconexão com a vida


Um texto com (muito) mais perguntas do que respostas

Estou aqui com minha tapioca de mandioca pubada e meu leite de inhame, tudo feito em casa, e percebo o quanto estou orgulhosa de comer assim. No semestre passado, no mestrado em Nutrição em Saúde Pública da USP, fiz a disciplina Determinantes das escolhas e comportamentos alimentares, das professoras Patrícia Jaime e Neha Khandpur. E comecei a questionar o quanto eu, ativista alimentar, sou tão influenciada por marcadores de identidade quanto qualquer pessoa — como aquelas que comem ultraprocessados pela praticidade, ou as que compram Danoninho acreditando na publicidade. …


Passei tanto tempo voltando para o trabalho logo depois do ano novo que, quando não precisava mais fazer isso, continuei fazendo

o "escritório" atual

Eu fui sócia de uma empresa uma vez, e, por mim, o recesso de ano novo duraria até o dia 10 de janeiro (sem descontar das férias). Minhas sócias, que são muito queridas mas são muito workaholic, nunca concordaram comigo nesse ponto (e nem em vários outros). Assim que continuamos voltando para o escritório logo em seguida do feriado, talvez apenas um dia depois, pra não pegar tanto trânsito. Eu saí da empresa em dezembro de 2016. Em janeiro de 2017 me peguei tomando banho de mangueira na laje do sobrado onde morava em São Paulo e me perguntando "que…


Como conciliar raiva e desejo?

my ranho-e-cabelo-ball. um sonho em 1992. desenho de Sylvio Ayala

Não tinha passado nem duas horas desde que saí da clínica quando recebi um whatsapp do médico. Dizendo que havia errado no laudo, precisava fazer outro. Não deu nem tempo de eu me perguntar "por que raios é o médico que está me mandando essa mensagem e não a moça da recepção?". Eu já sabia. Essa possibilidade já havia me passado pela cabeça: esse médico ia tentar falar comigo.

Eu tenho 50 anos na cara e ainda não aprendi. Estava lá eu deitada na maca, pernas abertas, quadril levantado, aquele lençol em cima de mim, esperando o exame começar. Para…


A beleza esconde infernos em nada diferentes daqueles expressos pela "feiúra"

uma época em que eu estava me achando bem "perfeita"

Eu também durante muito tempo achei que beleza traria amor. Pior: eu achava que quando eu estivesse “perfeita” — bonita e magra — o amor viria. Eu pensava: quando eu chegar “lá” alguém vai se apaixonar por mim.

Ontem terminei de ler o novo livro da Elena Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos. Dá uma raiva dos adultos-padrão, uma vontade de nunca ser igual. Queria eu ter tido a inteligência e a presença de espírito da protagonista quando eu tinha a idade dela. Muita dor teria sido evitada. Mas enfim, o que eu queria dizer é que tem uma passagem…


Uma pessoa muito menos perfeita do que eu pretendia ser

uma pessoa que só quer dormir no sol com um pano na cabeça cercada de cachorros

Não sou uma boa estudante. Não sei estudar, nunca estudei: eu só prestava atenção na aula. Agora, nem isso: tô sempre distraída com alguma outra coisa. Pra tu ter uma ideia, eu só consigo ouvir o que o professor tá falando quando ao mesmo tempo fico jogando tetris ou spider. Isso significa que estou sendo uma mestranda medíocre. Não consigo me dedicar ao que não me interessa muito (só quero ler sobre o antropoceno) e não estou fazendo todas as tarefas das disciplinas.

Tenho saudade de dançar forró, de gastar dinheiro, de pedir um delivery de comida de vez em…


As dores — porém delícias — de uma vida incerta

toda professorinha dando oficina

Tem gente que me pergunta isso, e eu imagino que tem gente que não pergunta, mas tem curiosidade. Então vou fazer uma retrospectiva de como cheguei aqui pra explicar o que me mantém aqui, agora. Eu me formei em jornalismo, mas fazia anos que eu não trabalhava como jornalista. Eu era sócia de uma consultoria de UX e a gente trabalhava para mega empresas tipo NET, Vivo, Gol, Itaú, e eu ganhava um monte de dinheiro. Mas chegou um dia em que o trabalho que eu fazia não fazia mais sentido para mim. …

Alessandra Nahra

Escrevo, planto, estudo, viajo. Falo com bichos, abraço árvores, e vice-versa.

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